VIVENDO E APRENDENDO A ESCOLHER...

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OS BARCOS ESTÃO SEGUROS NOS PORTOS, MAS NÃO FOI PARA ISSO QUE FORAM CONSTRUÍDOS. NAVEGAR É PRECISO!!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

ODE A ALESSANDRO - UM FILHO QUE NÃO VIVEU...



Oi gente!!
O que vou compartilhar com vocês hoje, não é apenas um pensamento ou uma opinião.
Na verdade eu escrevi esse texto a muitos anos atrás. Em 1973 mais precisamente!
Fala de um momento muito doloroso que eu vivi e que faz parte da minha história..

" E difícil de  acreditar no que estava acontecendo...Estaria mesmo acontecendo?
Estaria eu ouvindo coisas? Não. Decididamente não, uma vez que também estava vendo coisas...
Tento em meio a névoa do que estava acontecendo, relembrar onde eu estava, o que estava fazendo... Lembro que antes de ir dormir, visitei o quarto do meu bebe e fiquei por algum tempo absorta em minhas recordações...
Eu tinha a sensação de estar acordada, mas...eu quase podia jurar que havia ido dormir!
E no entanto diante dos meus olhos podia ver o velho carrinho de bebe (que conservei apesar de tudo) chorando...
Mas isto não  é possível! Não posso crer; carrinhos de bebe não choram!

- E porque não?
Só porque sou um carrinho não tenho alma, sentimentos ou direito de ficar triste?
Pois fique sabendo que a dois anos estou assim!
Antes eu era feliz aliás, nós éramos uma família feliz!
Eu tinha o Andrezinho para embalar, carregar e e saíamos a passear os quatro juntos, lembra?
Você, eu, o Andrezinho e o Robinho ( que gostava de me conduzir) quando íamos ao parque, a pracinha ou apenas dar uma volta no quarteirão; Ora andando devagar ou parando para ajeitar minha capota evitando assim que o sol molestasse o sono do nosso bebe...
E assim vivemos por alguns bons anos, até que o Dedé cresceu e não precisou mais de mim, e você me guardou. Foi um tempo de solidão e fiquei quieto e empoeirado, sem saber o que me aguardava...

Alguns anos depois, a porta se abriu e você veio em minha direção com um sorriso, me pegou com carinho,  limpou-me minuciosamente, e com cuidado me levou para um novo quarto!
E  pelo seu jeito alegre pude sentir que haveria um novo bebe para alegrar a casa e fiquei novamente feliz!

Havia no quarto, um bercinho, uma poltrona,  um pequeno guarda-roupas e uma estante; tudo organizado com todo capricho! E eu é claro, que  com a capota limpa,  perfumada e os metais brilhando, passei a esperar o grande dia!

O tempo passou e um dia, alguém entrou no quarto rapidamente, e pela pequena bolsa que foi arrumada com roupinhas e fraldas, deduzi que você estava indo para o hospital e que em breve entraria com o nosso novo bebe nos braços!
Os dias se arrastaram lentamente e eu quieto aguardava sem entender...
Mas em um dia chuvoso, a porta se abriu novamente e você entrou.
Caminhou lentamente segurando o ventre e com lágrimas correndo pelo rosto, parou em frente ao armário enfeitado com bichinhos pintados nas portas...
Abriu uma delas e ficou parada observando as pequenas e perfumadas peças de roupas que estavam penduradas em ordem... Depois veio em minha direção, pousou a mão em meu couro macio e chorou
desconsoladamente, e aquele pranto me disse sem palavras o que eu já adivinhara:
Não haveria outro bebe!!

Um silencio pesado tomou conta da casa.
E assim começou aquele ritual:
Você vinha todos os dias, olhava tudo com carinho, com um misto de dor e desespero, sentava na poltrona e chorava por horas perguntando:
- Por Que??
Essa era também minha pergunta! Mas você nunca se deteve para me escutar, mergulhada que estava em sua própria dor...
E assim foi por longos meses até que a porta do quarto foi trancada por um período que me pareceu anos e ninguém mais entrou, até  hoje.
Não se lembra? Você entrou novamente aqui e começou a embrulhar e guardar tudo e todas as coisas, inclusive eu!!
E é por isso que estou chorando!
De tristeza, solidão  e pela incerteza do que me reserva o futuro de Carrinho de Bebe, em uma casa onde não vão mais existir Bebes!

- O que dizer de tudo isso?
Não sei! Nada faço, continuo sonhando...Ou quem sabe,  dormindo..."

- Alessandro... Esse é o nome!
Acho que ninguém mais se lembra de sua passagem nesta Terra, filho. Só a mãe que te carregou no ventre e sonhou sonhos para sua vida...  nunca vai te esquecer, nem que viva cem anos!

E só quem passou pela dor da perda de um filho; de um bebe que nasceu  e morreu com apenas cinco dias de vida, pode entender a dor da alma atormentada de uma mãe naquele período! 

Sabe, hoje lembro com e paz e serenidade de todas estas coisa...(não que não me pergunte como ele seria hoje)...

Mas o tempo cura tudo não é mesmo? E por ele fui   curada daquela dor lancinante, daquele período de escuridão.
Mas  ele deixou uma marca de sua breve passagem nesse mundo no meu coração. E apesar de tudo, hoje sei   que ele está muito melhor na Casa do Pai!

Este também foi um tempo de  aprendizado...doloroso...
Mas como ouvi sempre dizer:

O que que não te mata, te fortalece!
Acho que isso aconteceu comigo também.

Fico por aqui,
Um abraço!





















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